A professora da USP e filósofa, Marilena Chauí, disse algumas verdades na semana passada quando esteve com a bancada federal petista na Câmara dos Deputados para discutir conjuntura política e os desafios atuais do Partido dos Trabalhadores. A filósofa afirmou: "As características (originárias) do PT teriam permitido que ele fizesse uma inovação que não fez, qual seja, definir em termos próprios a ética da política. O PT aceitou a concepção liberal de que as virtudes e os vícios dos indivíduos privados definem a ética pública. Ou seja, o PT aceitou a privatização da ética, quando poderia ter se oposto a ela em nome da ética da política, isto é, tomando dois valores éticos que só podem existir como valores políticos: a igualdade e a liberdade, que definem a democracia".


A intelectual militante (tema abordado pelo historiador Américo Souza no artigo "O papel dos intelectuais" neste blog) apontou um paradoxo: enquanto o governo Lula afasta a posição neoliberal, dirige os fundos públicos para os direitos sociais, amplia a transferência de renda, faz justiça social e amplia os espaços da participação, portanto, da liberdade política, o PT e seus parlamentares, em lugar de mostrar que isto é a ética na política ou a ética da política, além dos limites institucionais impostos pelo próprio ordenamento jurídico, submetem-se à ideologia liberal privatista da ética como virtudes e vícios dos indivíduos privados.


Veja bem, o PT dizia e se orgulhava que nunca teve um parlamentar com mandato cassado por denúncias de corrupção. Isso era pensar a ética política no sentido individual (concepção liberal) mesmo diante de um governo, como o do presidente Lula, que exerce a ética coletiva da distribuição de renda, da aplicação correta dos recursos. Nem os conventos escapam de ações "aéticas" ou imorais de alguns de seus indivíduos. Hoje o PT não pode deixar essa verdade de lado por que teve parlamentar cassado? A lógica correta defendida, inclusive pelo presidente Lula, é que se algum quadro, público ou interno do partido, pego cometendo algum crime, seja punido rigorosamente como orienta o ordenamento jurídico do Estado Democrático de Direito, com espaço à defesa e julgamento, mas o projeto político/administrativo não deve ser descredenciado por isso.


Marilena Chauí explicou também as diferentes visões sobre o
conceito de Igualdade Democrática. Para os liberais, significa igualdade formal perante a lei. Para o PT, significa justiça, ou seja, tratar cada um segundo suas necessidades e capacidades, tratar desigualmente os desiguais. Ela fez o mesmo com o conceito de Liberdade Democrática. Para os liberais, significa competição no mercado. Para o PT, autonomia (dar a si mesmo as normas e leis), participação, e não criminalizar os movimentos sociais. Um dos exemplos de construção da igualdade democrática é o que o Governo Lula faz na educação, colocando 350 mil jov ens no ProUni; construindo 164 escolas técnicas no país até o final do segundo mandato (nos últimos 93 anos, de 1909 a 2003, foram construídas 140 escolas técnicas). Sem esquecer que o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - Pronaf saiu de R$2 bilhões para R$12 bilhões de crédito ao pequeno agricultor.


Cabe ao PT passar a limpo essa página da história no que tange ao discurso sobre a ética e sobre as ações de quadros do partido que desrespeitam o ordenamento jurídico e não fazer o discurso da ética na perspectiva liberal, moralista, demagógica ou "UDNista". Deve punir os filiados que descumprirem a lei, o Supremo Tribunal Federal irá contribuir com esse julgamento. O Partido dos Trabalhadores deve rever essa concepção acerca da ética e, assim, somar eticamente na política para o fortalecimento das instituições e das políticas públicas. Dessa forma, estará a serviço do bem comum e da promoção da justiça social, saindo da perspectiva liberal da ética dos indivíduos, da privatização da ética. Salmito Filho é vereador do PT em Fortaleza.


Mino Carta comenta:

E o mensalão continua sem provas

Liga Jean-Paul Lagarride, de Paris. Logo vai ao ponto como abutre para a carniça. “Você é um intelectual chapa branca?” “Certamente não”, respondo, “na melhor das hipóteses sou intelectual orgânico, como diria Gramsci”. “Sei não”, comenta Jean-Paul, “acho pelo menos que nosso colega Clóvis Rossi assim o considera, intelectual chapa branca”. “Estranho”, digo eu, “Clóvis Rossi trabalhou comigo e sabe perfeitamente que chapa branca não sou e nunca fui”. Segue-se o seguinte diálogo.

Jean-Paul: “Está bem, mas li hoje a coluna dele na Folha, onde aponta os réus que faltaram no Supremo, como em Nurembergue, entre eles a intectualidade chapa branca, criminosos por corromper os fatos ao tentar transformar os réus em vítimas de uma conspiração da mídia”.
Eu: “Pois é, corromper os fatos não é minha especialidade. De resto, no que diz respeito aos homens do governo e do PT envolvidos, com exclusão de Gushiken, probo apparatschik que executou as ordens, sempre os enxerguei como imitadores pontuais de tantos antecessores de outros governos no uso desbragado, e criminoso, do Caixa 2. O mensalão, contudo, não foi provado durante a campanha anti-Lula, precipitada com o propósito de melar a reeleição, e resta ainda prová-lo”.

“Perdão, perdão, a quadrilha já está condenada”. “Como assim?” “Eu leio as manchetes dos jornais brasileiros. Parece-me, e digo isso friamente, que a questão está liquidada, ninguém ali escapa da justa punição”. “Pode ser que a punição venha, e em muitos casos será justíssima. E nem se fale de certa figuras altamente representativas, a começar por Marcos Valério e Roberto Jefferson. Ainda assim, insisto: o uso do Caixa 2 é incriminação suficiente, e a punição será exemplar, mesmo que o mensalão não venha a ser provado, como até hoje acredito. De todo modo, por ora, in dubio pro reo. Agora é que o processo começa, e não se exclui que dure até cinco anos, quando algumas acusações cairão por prescritas”.

“Perfeito o seu latim”.
“O latim confere grande prestígio a quem o emprega em ocasiões solenes. Mas a regra, inapelável, não é do agrado dos donos do poder nativo, dos patrões da mídia e dos seus sabujos. Por aqui, aplica-se outro princípio: aos amigos tudo, aos inimigos a lei. O chute do cadáver é o esporte preferido e, de mais a mais, bom cabrito não berra. Coisas da dita elite brasileira”. “Escuta o clamor, desce do cavalo de Orlando: o STF satisfez as expectativas da sociedade”.
“Qual sociedade? Vejo o Brasil cada vez mais dividido, a partir do desequilíbrio social monstruoso. De um lado temos os privilegiados e os aspirantes ao privilégio, a minoria, que se delicia com as manchetes de hoje. Do outro, a maioria, a padecer. A minoria reputa-a cordial, ou seja, resignada, submissa, rude e ignara. Se é não sei. Entendo que alguma mudança houve. A despeito da história do mensalão, condimentada por todos os molhos por cerca de dois anos, Lula foi reeleito. No meio dos dois Brasis cava-se um abismo, no qual medram a violência, a criminalidade, a ignorância, a doença”. “Neste momento, você e poucos mais são vozes discordantes. Por isso Clóvis Rossi fala em intelectuais chapa branca”.

“Certamente não se refere à minha modesta pessoa, embora eu tenha participado de um programa de Heródoto Barbeiro, na TV Cultura, juntamente com ele. Já naquela ocasião, anterior a reeleição, eu disse acreditar no uso de Caixa 2, embora não deixasse de sublinhar que o mensalão não tinha sido provado. Se não me engano, o colega Clóvis pensava o contrário. Quanto à chapa banca, acabo de fundar o movimento Cansei de tantas besteiras, aleivosias e calúnias”.
“Agora você ficou bravo”. “De jeito algum, porque mesmo as calúnias não deixam de expressar a crise mental daquela sociedade cujas expectativas foram satisfeitas pelo STF. Conheço Lula há cerca de 30 anos, e desde o primeiro dia percebi nele as qualidades que o levariam de presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema a presidente da República. Modestamente, acho que tive bom faro. Também fui o primeiro jornalista brasileiro que escreveu uma matéria de capa sobre o metalúrgico nordestino, em parceria com Bernardo Lerer, e a publiquei em uma edição de fevereiro de 1978 em Istoé, que então dirigia. Um amigo, por quem tinha muito afeto, faz três anos brigou comigo, irreparavelmente até hoje, depois de me acusar de ter criado o Lula. Ora, ora, imagine se Lula precisou de mim...”

“Mas você gosta muito dele”. “Gosto dele como amigo, e apostei nele e no PT, porque sempre supôs que o Brasil, para crescer, como tantos outros países capacitados a ganhar contemporaneidade do mundo, precisaria de um partido de esquerda não somente capaz de aposentar os dogmas do chamado marxismo-leninismo, mas também de pressionar eficazmente os donos do poder nativo, óbvios responsáveis pela impossibilidade de se alcançar um futuro digno para um país tão favorecido pela natureza. Lembro que em 1994, participei de um programa de entrevistas de Alexandre Machado em que Lula, candidato na segunda, e frustrada, eleição à presidência, era o entrevistado. Saímos depois para jantar em uma cantina dos Jardins. Estavam conosco José Dirceu e Aloísio Mercadante. Lá pelas tantas, entre uma garfada e outra, sugeri que ele abaixasse suavemente o tom revolucionário, que adotara durante a entrevista, a bem de um discurso mais persuasivo aos ouvidos da dita classe média. Tive a impressão de que não tinha agradado. Talvez. É certo, porém, que por um tempo mantivemos certa distância. Ou melhor, ele a manteve em relação a mim. A paz foi restabelecida em um jantar, na casa de um amigo comum, em dezembro de 2001”.

“Mas a sua revista apoiou a candidatura dele tanto em 2002, quanto em 2006”. “Você me ensina que definir-se a favor de um candidato é comum em países democráticos, só no Brasil, que eu saiba, a hipocrisia da mídia bate recordes mundiais e finge imparcialidade diuturnamente desmentida por seus comportamentos. CartaCapital apoiou Lula porque viu nele um candidato melhor do que os demais na liça. Nem por isso deixamos de ser críticos do governo, muito e cada vez mais. Recordo que em fevereiro de 2003, pouco mais de um mês depois da posse, Maurício Dias e eu fomos visitar Raymundo Faoro no hospital, muito doente. Morreria daí a dois meses. Faoro também apostava em Lula, eram amigos desde a greve de 1980. Lula chegou a convidá-lo, sem sucesso, para candidato a vice em 1989. Pois Faoro, no hospital, já estava decepcionado”.

“E você?” “Levei mais tempo, mas estou, e pelas razões opostas àquelas que teriam de agradar aos senhores e seus aspirantes. As minhas estão expostas em blogs e editoriais, e minha fala está apinhada por elas. Que fazer? Difícil, infinitamente difícil, é praticar o jornalismo honesto neste nosso País infeliz. Aliás, pouquíssimos disseram que o mensalão carecia de prova”.
“E agora?” “Ainda não foi provado. Esta é a verdade factual. Diga-se que hoje, ao ler o título da coluna de Clóvis Rossi, pensei: eis aí, ele se refere a Daniel Dantas”.

Comentários

Valeu Salmito! concordo com vce.O PT deve rever essa concepção acerca da ética.
Anônimo disse…
Lamentavel,
que depois de tantas afirmacoes corretas, SUBLIMARMENTE venha DEFENDENDO O CRIME do Mensalao.

So OTARIO nao admite o FATO de ter sido Sistematicamente introduzido tais PRATICAS durante a CONSTITUINTE. Claro que ha Fatos e Boatos, porem Compras de Votos para Emendas Constitucionais, e Trocas de Partidos, para Votacao Compradas, onde alguma Cupula Partidaria seria Contraria, e CARGOS seria Oferecidos como Pagamentos; e uma Pratica que a Constituinte foi PROJETADA a NUNCA ser ACABADA.
Inauguracao em 1988, so mesmo de fachada. O povo nao sabia do que se TRATAVA, e a maioria dos Personagens eram Analfabetos de Diplomas Comprados, tornaram DEPUTADOS CONSTITUINTES, sem Nunca lerem Livros que desse a eles o Minimo Senso de Etica, Justica e Sociedade CIVILIZADA.
Resultado; ai estao os Blogueiros e Cumpichas defendendo o que e lhe Instituido por Autoridades que deveriam estar de Tras das Grades, caso O BRASIL FOSSE UMA NACAO SERIA.

Pode ate ser que LULA tenha tido um Sentimento de Mudancas Justas, mas nao foi Inteligente e nao o e, o suficiente para Escolher Aliados e Associacoes. Criaram a Mentalidade de que RICO faz MAU para a NACAO; enquanto os BILIONARIOS da ELITE POLITICA SINDICALISTAS que se enricam Ilicitamente, sao Autoridades Intocaveis, fazendo dos que Trabalham e sao EXTORQUIDOS PARA MANTER a CORTE MAQUEVELICA, sao Propagados como se fossem Viloes.

"Uma Mentira repetida Milhares de vzs, Torna se Verdades", para INCULTOS E CLARO!

Abracos,
Admirvasconcelos@aol.com
Anônimo disse…
OOPS,
esqueci de mencionar, que no DESgoverno de Ze Dirceu(primeiro mandato de lula), claro que o Chefao era Ze Dirceu, e Jefferson
foi Encostado na Parede pelo Ze Dirceu, que se achava acima da Lei e Intocavel, depois do CIRCO DO BINGO. porem Jefferson Contra atacou Pesado, e para Blindar lula, acabaram por ARMAR o CIRCO como esta atye hoje.

Se o Mensalao nao existiu, e por que tambem nao houve Holocausto contra Judeus, Nao houve Inquisicao, nem Primeira e Segunda Guerra Mundial, e muito menos Ocupacao no Iraque. O mundo esta em Plena Paz, e Cristo Reina como os Cristaos Pregam para o Resto da Eternidade, comecando do DESgoverno de Ze Dirceu; indicado pelo General Comandante Supremo lula da silva.

Paciencia...

Admirvasconcelos@aol.com
Anônimo disse…
O Mino Carta critica o governo? Quando, onde?
Alguém me mostre um texto dele criticando o governo. Aquele é tão chapa branca quanto o Rossi e o PHA.
Faz-me rir.
Liliane
Anônimo disse…
Discurso de Lula no palanque:
"No meu governo corrupto não entra. No meu palanque corrupto não sobe".
E aí, Lula, o sr continua tão amigo dos que o "apunhalaram pelas costas" como antes.
E se não são corruptos por que o apunhalaram?